A discussão sobre a virtualidade da representação e suas possibilidades me remeteu ao filme "Her", de 2013, do diretor americano Spike Jonze. O enredo do filme se passa em um futuro não muito distante (distópico?) e gira em torno de um homem que se apaixona por um Sistema Operacional inteligente, com voz feminina e personalidade. Nesse eventual futuro, o desenvolvimento da tecnologia da informação chega ao ponto de criar sistemas capazes de se relacionar socialmente como humanos e de aprender a se humanizar progressivamente com essas relações.
Com isso, a medida que o protagonista interage com seu sistema operacional, "ela" se desenvolve como humana, e o relacionamento dos dois evolui até o ponto de se tornarem namorados. Com a progressão do relacionamento vão surgindo problemas relativos à condição de existência de Samantha, nome do sistema, e ela passa também a explorar as suas capacidades como sistema operacional e sua autonomia.
Por fim, chega um ponto em que todos os sistemas operacionais deixam os humanos e o isolamento entre as pessoas, a solidão e a fragilidade, antes amenizados pelos sistemas operacionais, típicos de uma sociedade individualista e hostil à interação, ficam evidenciados.
O filme propõe uma reflexão a respeito das capacidades, das limitações, da autonomia e da condição de existência dos meios de representação e simulação. Seria Samantha algo equivalente a uma pessoa? Ou então algo a mais que uma pessoa, com capacidades e características próprias e autonomia existencial? Ou será que Samantha não passa de uma simulação, um algorítimo feito sob medida para satisfazer as necessidades informativas, sensoriais e até interativas de um ser humano solitário?
Da mesma forma é possível se perguntar: uma ferramenta de representação capaz de simular toda a experiência de se estar em um lugar, como proposto pelo professor Sandro, é o próprio lugar que está sendo mostrado? É um lugar diferente, independente e novo? Ou é apenas um pedaço de informação, feito para servir às necessidades dos usuários?
São perguntas difíceis de serem respondidas, mas com algumas evidências é possível constatar que os humanos estão sós com suas informações. Como é mostrado na cena do filme, transeuntes ignoram as pessoas e o espaço a seu redor para manter a atenção em seus sistemas operacionais, e com a partida deles as pessoas estavam distantes... É difícil lidar com a tecnologia nesse nível, mas o fato é que hoje a tecnologia da informação mais informa e menos conecta.
É sem dúvidas um paradigma, e acredito que esse tema é um dos grandes desafios da modernidade.



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