segunda-feira, 30 de maio de 2016

Nuno Ramos: O direito a Preguiça

Visitei a exposição "O direito a preguiça" do artista Nuno Ramos no Circuito cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte e me surpreendi positivamente com seu conteúdo e a reflexão provocada na visita. Logo ao chegar no andar da exposição fui orientado a circular livremente: a exposição não tem começo ou fim, algo não usual nas exposições que já visitei no mesmo museu. Na primeira sala que adentrei, um grande aquário distorcia as medidas da parede central, enquanto era tocada uma gravação de lances em um leilão de arte. Já um reflexão sobre os paradigmas da arte.


Mais adiante, em uma grande sala, é tocado um áudio com perguntas ainda mais paradigmáticas, como duas delas que me chamaram atenção: "O que fazer com a estética da fome de Glauber Rocha, agora que todos os pobres são obesos?" e "Dar esmola contribui para o bem-estar dos miseráveis?". E na parede uma única resposta escrita sobre um quadrinho de Tintim: "No sé" (" não sei" em espanhol").





Em uma outra sala, é revelado que, por trás dos grandes aquários distorcendo as paredes, existe um efeito dessa distorção, e em vez de um leilão de arte, o que se ouve são gravações da cultura popular brasileira, em uma delas um samba e na outra, um poema.Por fim, cheguei a esculturas de vidro que continham vídeos de músicos se apresentando, porém, a separação provocada pelo vidro dificulta a compreensão do que está sendo tocado, existe um distanciamento da arte e do artista em relação ao expectador. E esse foi o ponto que me pôs a refletir.
 Onde está a arte senão na percepção do apreciador? Em diversas ocasiões durante minha visita à exposição fui advertido: "não chegue tão perto!", "você não pode gravar isso!", "não toque na obra!"... A arte contemporânea está claramente em crise por que não considera a sensação do expectador, não quer ser compreendida. Por isso, por trás de um leilão de arte, a cultura popular, que sempre dialogou bem com as pessoas em geral em um nível emocional, e para a música, uma linguagem tão comunicativa sentimentalmente, uma bruta divisória de vidro. 
A arte é para as pessoas e parte das pessoas, e muitas galerias e artistas ainda não entenderam isso. A sensibilidade se sobrepõem a qualquer outra coisa. Temos o direito a preguiça, e devemos exercê-lo.

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